
O bom desempenho da indústria no final do ano passado até supreendeu. Além de ter tido a primeira expansão após três anos de um tombo muito pesado, em que a produção caiu algo perto de 20%, a retomada foi geral, desde bens duráveis, como veículos e eletrodomésticos, até máquinas e equipamentos, que são um termômetro de investimentos. Claro que o setor está longe de reverter tudo que perdeu, mas outros indicadores mostram que está mesmo numa fase de recuperação. Levantamento da CNI, a Confederação da Indústria, também divulgado hoje, mostrou aumento do faturamento, das horas trabalhadas e até do emprego. Variações pequenas, que podem ganhar impulso se o consumo doméstico continuar avançando. Há todo um esforço do setor em expandir as exportações, mas falta competitividade pra garantir resultados mais expressivos. As montadoras é que têm avançado mais com as vendas externas, mas, basicamente, para a Argentina. O País vizinho está num ritmo de crescimento bem mais acelerado, que gera mais demanda. Agora, a expectativa é que toda a economia tenha, neste ano, um desempenho efetivamente melhor, que faça mais diferença. Porque é evidente que a retomada de 2017 não conseguiu apagar as marcas da crise. A indústria saiu do vermelho, mas com uma participação bem menor no PIB e na geração de emprego; o desemprego caiu, mas o contingente de desempregados ainda é enorme e a informalidade cresceu muito; a inflação cedeu, mas reajustes como da gasolina e do gás, além de planos médicos e mensalidades escolares, fazem com que os consumidores, boa parte ainda convivendo com o aperto decorrente da crise, não tenham muita percepção dessa queda da inflação. O mesmo acontece com os juros. A taxa básica, definida pelo Banco Central, está no menor patamar da história, só que os juros do crédito continuam altos demais, passando dos 300% ao ano, nos cartões e no cheque especial. O Brasil está respirando melhor, como um doente que teve uma doença muito grave, ficou na UTI, começa a melhorar, mas ainda está fraco e sujeito a recaída. Recaída sim, se o governo, este ou o próximo, por exemplo, não conseguir melhorar o quadro fiscal. Não tem crescimento que se sustente com o atual nível de desequilíbrio das contas públicas. É como um prédio construído numa base de areia. Mas é um grande alívio, a economia já ter entrado num ciclo positivo. Boa noite.